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'Já passei por várias situações de racismo estrutural'

Na Câmara de Vitória, a vereadora Camila Valadão (Psol) lamenta o que classificou como o "não reconhecimento do racismo no debate legislativo" e, mais do que isso, "até mesmo a negação do tema"

20/11/2021 às 15h06 Atualizada em 22/11/2021 às 15h18
Por: Agora ES
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Foto: Reprodução Facebook
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Luiz Fernando Brumana

"Já passei por várias situações de racismo estrutural. A gente sente nos olhares." A afirmação é da mulher negra ocupante do segundo mais alto cargo do Executivo estadual: a vice-governadora Jacqueline Moraes (PSB). Ela não é a única. Na Câmara de Vitória, a vereadora Camila Valadão (Psol) lamenta o que classificou como o "não reconhecimento do racismo no debate legislativo" e, mais do que isso, "até mesmo a negação do tema".

O debate sobre negritude e racismo, tradicionalmente, entra em voga na sociedade no mês de novembro, quando comemora-se o Dia de Consciência Negra (20), mas é uma pauta social constante para muitos brasileiros, inclusive aqueles ocupantes de cargos eletivos.

"Entrar no supermercado e, mesmo já vice-governadora, o segurança me seguir a cada momento. Pegar algo na prateleira do mercado e depois abrir a bolsa, então, podem achar que você está roubando. Nunca vi um negro que não tenha passado por isso. Já passei e uso como combustível para minha luta", enfatiza Jacqueline.

Já Camila ressalta: "Sou a primeira vereadora negra a entrar na Câmara de Vitória. Afirmo que, sim, sou negra. Mesmo que alguns achem que não preciso me autodeclarar. Somos muito diversos."

Essas vivências, infelizmente, não são pontos fora da curva. Em um sistema políticos no qual, tradicionalmente, há um perfil de candidato que consegue mais espaço no comando dos partidos, recursos e, automaticamente, votos, criar representatividade passa a ser uma luta constante. "A politica ainda é branca e masculina, por uma questão histórica. Ainda não temos o mesmo espaço, mas está mudando", estima a socialista.

Na eleição do ano passado, no Espírito Santo, por exemplo, se somados os candidatos autodeclarados pardos e pretos, representavam 52,51% dos pleiteantes, ou seja, 6.606 de um total de 11.911 aptos à disputa, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Aqueles que se afirmaram brancos totalizavam 44,75% (5.626). Porém, dos 1.006 eleitos nos 78 municípios capixabas, apenas 38,32% (396 pessoas) são negros, enquanto 57,75% (581 pessoas) brancos.

Em 2018, no pleito estadual, disputaram um total de 883 candidatos, 49,64% (422) negros e 48,98% (408) brancos. Dos eleitos, 66,67% (32) se autodeclararam brancos e 33,33% pretos (4) e pardos (16), segundo o TSE.

Com base em dados como esses, a nova legislação eleitoral instituiu uma mudança importante no que se refere à maior participação de negros na política: votos dados a candidatos desse grupo serão contados em dobro na distribuição do Fundo Partidário e do Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC) – também chamado de Fundo Eleitoral – nas eleições. Ou seja, quem tiver em seus quadros potenciais candidatos com esse perfil terá mais recursos em caixa.

"Política de cotas é necessária e deveria ser ampliada. Avançamos em muitas coisas e estamos atrasados em outras. A legislação definir que partidos devem aplicar recursos em campanhas de negros é fundamental. Não ganhasse eleição sem investimentos", argumenta Camila.

Jaqueline ratifica: "Há necessidade de representatividade. As escolas estão inserindo no currículo escolar a história da cultura afro-brasileira. Antes, era muito difícil eu me autoafirmar negra vendo minha origem no tronco, como mostrada nos livros. Quando eu vi minha origem como reis e rainhas, com suas danças, passou a ser outra coisa. Precisamos corrigir isso. E como fazemos? Elegendo pessoas, fortalecendo."

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